Falta de Mão de Obra ou Falta de Proposta de Valor no Mundo do Trabalho?
O movimento sindical tem acompanhado, com atenção, um debate que vem ganhando espaço no discurso empresarial, a suposta “falta de mão de obra” e a ideia de que “as pessoas não querem mais trabalhar”.
É fundamental tratar esse tema com responsabilidade, dados e visão estrutural, evitando análises simplistas que transferem toda a responsabilidade para o trabalhador.
O Brasil atravessa, em diversos setores, um cenário de elevado nível de ocupação, o que altera diretamente a dinâmica das relações de trabalho. Em contextos como esse, é natural que os trabalhadores tenham maior poder de escolha, avaliando não apenas salários, mas também condições, jornada e qualidade de vida.
Nesse cenário, cabe uma reflexão objetiva, estamos diante de uma ausência de trabalhadores ou de um modelo de trabalho que deixou de ser atrativo?
Durante muitos anos, consolidou-se um padrão em que jornadas extensas, baixos salários e poucas perspectivas eram tratados como regra. Questionar esse modelo era visto como exceção. Hoje, porém, há uma mudança clara de comportamento e de expectativas.
O trabalhador contemporâneo busca equilíbrio entre vida profissional e pessoal, previsibilidade, ambientes de trabalho saudáveis, respeito e condições que garantam dignidade. Isso não representa falta de disposição para o trabalho. Representa uma escolha racional diante das possibilidades existentes no mercado.
É importante destacar, salário é um elemento central, mas não é o único. Trabalho não pode ser analisado apenas como preço, mas como proposta de valor.
Empresas que oferecem exclusivamente remuneração básica, jornadas exaustivas e alta pressão tendem a enfrentar maior rotatividade e dificuldade de retenção. A experiência prática demonstra que ambientes organizacionais estruturados, com políticas claras de desenvolvimento, liderança qualificada e condições equilibradas, conseguem atrair e manter trabalhadores.
Nesse sentido, a discussão sobre a jornada de trabalho, como a defesa da escala 5x2 deve ser compreendida como uma pauta de saúde, produtividade e sustentabilidade social, e não como um privilégio. Redução de jornada não é sinônimo de queda de desempenho, mas pode representar aumento de eficiência, redução de adoecimentos e maior permanência dos profissionais.
Outro ponto incontornável é a incorporação de tecnologia e automação. O avanço tecnológico é inevitável, mas sua aplicação exige responsabilidade social. A automação não deve ser utilizada como instrumento de exclusão, e sim como ferramenta para elevar a produtividade, reduzir tarefas repetitivas e permitir a qualificação e valorização dos trabalhadores.
O futuro do trabalho exige diálogo, maturidade e compromisso coletivo. Não se trata de antagonizar empresas e trabalhadores, mas de construir relações laborais mais equilibradas, modernas e compatíveis com a realidade atual.
Empresas fortes dependem de trabalhadores valorizados.
Trabalhadores protegidos contribuem para empresas mais produtivas.
Portanto, o debate que se impõe não é se as pessoas querem ou não trabalhar, mas sim, que tipo de trabalho está sendo oferecido e em quais condições.
O mundo do trabalho está em transformação. Cabe a todos os atores empresas, trabalhadores, sindicatos e poder público, compreender essa mudança e agir de forma responsável, equilibrada e comprometida com o desenvolvimento social e econômico do país.
Pedro Barnabé
Presidente do SINDPROMARK
12/02/2026